O Rei Leão (2019) e a hierarquia social


Contos de fadas são objeto de estudo da psicologia e da psicanálise não é de hoje, afinal de contas a fantasia faz parte do nosso processo subjetivo além de ajudar a solidificar em nossas mentes conceitos de estrutura social.

O longa, que é um ramake da clássica animação de 1994 conta a trajetória de Simba, um jovem príncipe de um reino animal que vê o legado de sua família ameaçado por um golpe. A história que já foi de forma bem claramente admitida como inspirada na peça Hamlet, drama clássico de Shakespeare, nos traz um conflito familiar que envolve política e a monarquia.

Mas o que é hierarquia social e o que este filme infantil tem a ver com esse conceito?

Hierarquia social é quando uma sociedade tem indivíduos ou grupos que se sobrepõem aos demais, seja por influência política, econômica, cultural ou etc. Basicamente uma pirâmide social onde na ponta estão pessoas privilegiadas e abaixo todo o resto.

Numa monarquia, dependendo de sua organização e do contexto, a família real costuma estar no cume dessa pirâmide, e quando você representa essas figuras sociais como animais você tem uma ideia clara de que esta sociedade está dividida em castas.

A casta é um sistema social onde a influência ou posição social do indivíduo é definida pela família onde você nasce.

Isso significa logo de cara que em O Rei Leão temos uma monarquia e uma sociedade sem mobilidade social, onde quem vai estar no poder sempre serão os leões e sua posição social vai sempre ser definida pela sua "raça".

E se a mensagem fosse só essa a gente já poderia tecer várias críticas, mas eu falei só sobre a estrutura organizativa da sociedade desse mundo de fantasia.


O longa conta uma história onde há uma tentativa de fazer uma mudança ínfima nesse sistema social estabelecido. Antes de criticar isso é importante destacar que a forma como o personagem Scar é construído o transforma num ser indefensável: ele é cruél, mentiroso, invejoso e ainda por cima covarde. Mas a mudança que ele causa no reino é algo interessante.

Nunca nos é revelado por que as hienas foram banidas do reino, mas o interessante é que, mesmo que o poder não saia da mesma família de leões, quando Scar se torna rei ele tira as hienas de uma situação de marginalidade.

E o que os roteiristas nos mostram no processo é que: quando uma pessoa (ou grupo) que tem características diferentes das nossas assume o poder e mexe na estrutura social isso só pode terminar em tragédia.

De uma forma bem caricata, o reino do filme se desertifica se transformando num cenário árido cheio de esqueletos trazendo o medo, a morte e a fome para aquele equilíbrio que o falecido rei dizia defender.

Aliás, esse conceito de equilíbrio no filme é uma mensagem que pode ser entendida de duas formas diferentes: aparentemente, a forma que a Disney quer que a gente entenda é que esse equilíbrio tem uma mensagem ecológica dizendo que precisamos respeitar a natureza e seus seres; mas numa interpretação mais sociológica pode-se dizer que esse equilíbrio é que cada animal tem que aceitar sua posição social sem questionar o poder.

É claro que quando falamos de um reino onde as castas são feitas de seres fisiologicamente diferentes fica fácil concordar com esse engessamento das classes sociais,

mas a gente precisa lembrar que no meio do filme, um leão vai morar na floresta (fora do seu habitat natural!) e consegue conviver com animais que seriam suas presas sobrevivendo apenas de insetos! Fora que a fisiologia não pode justificar o engessamento da mobilidade social porque esse é um filme de bichos que falam!

Enfim,

Não é de hoje que contos de fadas são criticados tendo em vista as mensagens que passam. Há longas discussões sobre a figura da princesa passiva esperando ser salva pelo príncipe encantado. E por isso podemos dizer que o retorno de narrativas desse tipo pode denotar um certo saudosismo de uma época em que as pessoas eram induzidas a acreditar que sua posição social era coisa do destino e que o poder e o status quo não devem ser questionados.

Enfim, bom filme a todos e espero não ter estragado uma memória feliz da infância de ninguém.

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