Por que você (provavelmente) nunca vai ficar rico - ou uma reflexão da relação entre a propriedade e o crédito


Antes da revolução industrial o pobre era parte da propriedade dos ricos, senhor de terras, para quem trabalhava de forma semi-escrava ou até literalmente escrava.

Mas aí veio a revolução industrial.

O pobre passou a exercer uma função que carecia de saber técnico. A educação pública foi criada porque era interesse dos poderosos ter empregados qualificados. E então, o pobre que conseguia ter alguma propriedade ou patrimônio com o fruto de seu trabalho. Surgiu a classe média.

Mas aí veio a revolução econômica.

Com um mundo globalizado e cheio de transações complexas estamos vendo a classe média perder cada vez mais poder aquisitivo. A classe média cada vez menos tem conseguido conquistar patrimônio, e quando falamos de propriedade aqui não estamos falando de extensões de terra como fazendas, mas sim da mera casa própria.

Repare bema sua volta. Provavelmente no seu círculo social, em muitas famílias, os últimos a terem condições de adquirir uma propriedade estão a duas gerações antes desta. Sendo provavelmente seus avôs ou bisavôs (se você nasceu depois de 1980). Seus pais provavelmente já herdaram uma propriedade, não adquiriram uma, ou então construíram seu patrimônio em terras previamente conquistadas.

E o que sobrou para esta geração foi o crédito.

A única chance de adquirir patrimônio para a maioria da população desta geração é através do crédito. O próprio Bauman já dizia que no mundo pós moderno a "febre das cadernetas de poupança tinha sido trocada pela febre dos cartões de crédito".

Muitos economistas já falam que é mais vantajoso alugar um imóvel do que financiar um, afinal de contas, na atual conjuntura a aquisição de um imóvel é na verdade a aquisição de uma coleira de décadas vinculada a uma instituição financeira.

Outros bens de consumo de nível elevado como carros, de tão caros e não práticos já nem entram mais nos interesses de alguns jovens adultos, tanto pela despesa que eles representam quanto pela falta de praticidade nas grandes cidades, onde a tecnologia de aplicativos como Uber ou até mesmo o transporte público se mostram alternativas mais baratas e eficazes.

No entanto, a geração que não tem patrimônio, nem a liberdade de um veículo talvez esteja sendo cerceada em seus direitos e ambições. Afinal de contas, contrair uma dívida seja para um carro ou uma casa, bens vistos como "investimento" (o que muitos economistas discordam) significam prender o cidadão a uma obrigação financeira muito além das suas capacidades. O que dificulta que ele faça reais investimentos, ou seja, aqueles que auferem um lucro real.

Se tornamos o investimento (e por consequência o lucro) algo abstrato e complexo, nós afastamos do pobre a possibilidade de prosperar.

De fato, mesmo considerando que carro e casa não são investimentos reais e sim despesas, quando afastamos o cidadão da possibilidade de aquisição de algo sólido e tornamos complexas as possibilidades de obtenção de lucro, afastamos do mesmo a possibilidade de prosperar. Afinal de contas, apesar de permitir uma flexibilidade, o aluguel ainda é um compromisso que onera a renda do cidadão e diminui sua capacidade de investimento, e por consequência, de lucro.

Se proprietário de um imóvel muitas vezes flexibiliza a renda da família, permitindo que haja uma estabilidade para investimentos, apesar de limitar o espaço geográfico de atuação desses sujeitos. Por isso cada vez mais é difícil percebemos uma ascensão social, afinal de contas, a tendência é que no futuro:

quanto mais o sujeito necessita arcar com o compromisso do crédito adquirido, mais ele depende da venda da sua força de trabalho para se sustentar, e assim, dependente do patrão, sua capacidade de obter lucro ao invés de crédito é cada vez mais limitada.

Isso solidifica a hierarquia social e engessa a ascensão de classe tornando as relações econômicas na nossa sociedade cada vez menos flexíveis e impondo um status social aos sujeito menos afortunados. Penso que a classe média tenha se tornado uma ilusão e que cada vez mais a tendência seja que, economicamente, os sujeitos sejam divididos apenas entre ricos, pobres e miseráveis.

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