O que a psicologia cura?


Este é um tema amplamente discutido na psicologia, tanto em sua vertente biológica quanto na sua vertente filosófica. O que o psicólogo cura? O que é um mal da mente?

A princípio é preciso entender a semiologia da psicologia para podermos alcançar o conceito de doença que muitas vezes não é exatamente aquele que é visto dentro das demais áreas da saúde, que, em sua grande maioria tentam sanar a perturbação do organismo geralmente apontada por um sintoma.

O profissional de saúde tem por foco o funcionamento anormal daquele organismo e por muitas vezes irá procurar alcançar "a boa forma" do mesmo. Mas existe uma "saúde mental" mensurável? Pois se as perturbações orgânicas possuem sintomas bem distintos como podemos dizer o que é uma pertubação da mente ou um desdobramento da subjetividade?

Até mesmo no meio psiquiátrico, muitos sintomas têm sido relevados e até mesmo esquizofrênicos têm reconhecimento do seu direito de ser da forma que são.

É claro que as políticas inclusivas que vemos atualmente não poderão abranger sujeitos que causam mal a sociedade ou a si mesmo, mas é importante relevar que, estatisticamente estes sujeitos não são a maioria dos casos, posto que se fossem a própria ideia de sociedade seria impossível.

Mas existe uma boa forma psicológica? É preciso ter em mente que transtornos psiquiátricos são, salvo exceções, desvio gritantes desta "boa forma" que a saúde prega. Mas será que podemos ter em vista uma boa forma em todos os casos?

Até que ponto comportamentos como a angústia, ansiedade e introspecção podem ser vistos como desvios da "normalidade"? Pregar o prazer e a ausência de sentimentos negativos é por si só uma "boa forma"? Podemos considerar isso saúde?

Um médico raramente tem por objetivo ensinar seu paciente a conviver com um sitoma, até porque irá correr o risco de ser considerado um profissional ruim. Mas muitas vezes o trabalho do psicólogo pode ser este: fazer com que a existência do sujeito não se torne motivo de angústia, e talvez em alguns casos a existência do sujeito se dê através do sintoma.

Então seria acertado supor que o psicólogo cura o sujeito ao fazê-lo entrar em sincronia consigo mesmo?

A saúde muitas vezes quer extirpar o sintoma, ou seja, fazê-lo desaparecer a qualquer custo, mesmo que seja através de uma amputação. O psicólogo tem as ferramentas para fazer tal procedimento, mesmo que seja no campo simbólico, no entanto, muitas vezes o trabalho dele é fazer com que este organismo funcione em função do sujeito, o que também pode significar funcionar através do sintoma.

No entanto não podemos considerar que sofrer em função de um sintoma seja uma assincronia deste organismo psíquico, já que ao contrário de nosso organismo biológico, a mente está o tempo todo criando e desfazendo estruturas. Há sintoma há todo tempo. O sujeito se recria a cada instante suprimindo, absorvendo e criando sintomas.

Dar a entender que o sujeito não está em sintonia consigo mesmo é pensar que o mesmo tem em si partes estranhas que não obedecem o funcionamento do organismo. Porém, se levamos em conta a existência de um inconsciente, que aliás hoje está se mostrando cada vez mais neurológico, precisamos levar em conta que este sintoma, mesmo que funcione a revelia do sujeito, sempre fez parte do mecanismo de funcionamento de sua mente. Então quem é o psicólogo para dizer que sujeito diante dele não está sintonizado consigo mesmo?

A cura que o psicólogo oferece é, portanto, subjetiva.

Principalmente para aqueles psicólogos cuja ferramenta de trabalho é a fala, o psicólogo tem o poder de curar aquilo que o sujeito elenca enquanto curável, tem o poder de operar as estruturas que o sujeito coloca sobre a mesa. Portanto, quem teria a autoridade de dar alta?

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