Freud explica: Blade Runner 2049 (sem spoilers!)


Ego, Self, alma, anima... eu... 

Dentro da psicologia as várias vertentes interpretativas das teorias da mente definem a consciência, ou "o ser" de uma forma peculiar, mas muito parecida. O que nós somos é um conjunto de experiências, o ambiente que vivemos, as pessoas com quem nos relacionamos e bem no começo da teoria psicanalítica e hoje autenticado pela neurociência, podemos dizer que o que nos define, nesse exato segundo, são nossas memórias.

Mais do que uma etiqueta que nos identifica, nossa personalidade é um conjunto de prováveis comportamentos que teremos em determinados ambientes e eventos. É uma assinatura hipotética de quem nós somos. E o caminho pelo qual os impulsos que geram essas ações passam é mnemônico.

É por isso que não dá pra gostar de psicologia ou psicanálise e deixar passar Blade Runner 2049 sem fazer nenhum comentário.

Philip K. Dick, autor da obra literária que inspira o filme de 1982 foi um escritor de ficção científica famoso por flexionar esse gênero literário. Ao invés de se ater a especulação tecnológica como fizeram muitos escritores antes dele tecendo em seus textos grandes "e se's" sobre como seria o futuro da humanidade, K. Dick parou e pensou "como seria a humanidade no futuro".

O premiado autor Alan Moore diz que um dos grandes trunfos do bom escritor é simular a reação humana ao evento de sua narrativa. Por isso o autor de Blade Runner especula muito mais a reação humana à tecnologia do que a tecnologia do futuro em si mesma. Ele de certa forma especula como funcionaria a nossa mente.

Por isso, é acertado dizer que em Blade Runner 2049, em certos momentos, a ficção científica fica de lado por se tratar mais de um filme sobre o construção da consciência de si mesmo.

Qual o tipo de experiência constrói nossa memória, que constrói nossos sentimentos e reações diante delas? O fato dessas experiências serem artificiais muda quem nós somos? Essas perguntas levantadas pelo filme se tornam cada vez mais atuais tendo em vista que cada vez mais as relações humanas são atravessadas pela virtualidade tecnológica.

No entanto, quando nós falamos da própria arte em si, não seria ela uma experiência artificial? Pois se considerarmos a arte uma experiência visceralmente real, até que ponto as consequências de uma memória falsa seriam desconsideráveis na construção de quem nós somos?

É preciso ainda levar em conta que, até mesmo na clínica, Freud dizia que a estrutura do discurso do paciente era muito mais importante do que a realidade dos fatos. E que essa reinterpretação de algo que já não era exatamente real era o que permitia a cura.

E a filosofia tecida por Freud atualmente encontra sintonia com as recentes descobertas da neurociência que levam a crer que nossos sentimentos em relação aos fatos que aconteceram no passado são capazes de mudar nossa interpretação e nossa consciência sobre eles.

Por fim, em suma, ter claro este tema antes de assistir o filme faz com que a experiência de assisti-lo se enriqueça permitindo que, assim como em outras obras, o espectador possa não só questionar a sua realidade, mas sim a realidade de sua própria mente.

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