Quem deve ser chamado de Doutor?


Vamos falar de um assunto que é polêmico no mundo acadêmico. De um lado temos pessoas defendendo a tradição de chamar médicos, ou qualquer profissional de saúde em geral e também os profissionais da área de direito de doutor. Do outro tem a galera que diz que "doutor é quem fez doutorado". Quem está certo?

Mas, provavelmente antes de chegar aqui você pesquisou no Google e viu que essa conversa vem de muito tempo atrás, do Brasil Colônia, onde os jovens tinham que sair do país pra cursas faculdade. E aí ninguém menos que Dom Pedro 1º baixou uma papeleta dizendo que todo mundo que tivesse o canudo do Ensino Superior com órgão de classe devidamente regulamentado deveria ser chamado por este devido título.

Mas esta história não explica a situação toda. Pesquisei sobre o assunto porque sou psicólogo e esse é um debate que sempre aparece entre os profissionais da área de saúde. Mas a primeira coisa que precisamos fazer aqui é ter ideia de que existem "dois doutores". Mas vamos entender primeiro por que tanta gente se chama por aí de doutor, mesmo que não tenha o título acadêmico, ou seja, sem ter feito o tal do doutorado.

ALGUNS PROFISSIONAIS SÃO RECOMENDADOS  PELOS SEUS CONSELHOS A SE APRESENTAR COMO "DOUTOR".

Para começo de conversa, é importante destacar que alguns profissionais são "obrigados" pelo seu código de ética a se apresentar como "doutor fulano(a)". Quem me falou sobre isso foi uma fisioterapeuta enquanto a gente debatia justamente sobre esse assunto.

No Brasil o Dr. Dolittle seria doutor?

No entanto é preciso ressaltar que o código de ética de qualquer profissão é uma recomendação, e não obriga efetivamente ninguém a nada, porque no Brasil "ninguém é obrigado a nada, exceto em virtude de lei", já diz a nossa Constituição Federal. Tá certo que quando um profissional infringe o código de ética ele pode ter sua licença para trabalhar cassada, mas eu duvido muito que o conselho de fisioterapia ou de odontologia (que também faz essa recomendação) vá caçar um registro profissional por causa de uma bobeira dessas.

No caso dos advogados tem muita gente que faz questão de se apoiar no decreto de Dom Pedro pra dizer que advogado é doutor (um exemplo: aqui). Mas a situação é muito mais uma mera formalidade do que uma briga por um título em si. Isso no caso dos profissionais que tem o mínimo de bom-senso, é claro.

Isso porque o próprio decreto diz que será conferido o título de doutor a quem tiver adquirido os requisitos para tal. Palavras do próprio imperador do Brasil:

Art. 9.º – Os que freqüentarem os cinco annos de qualquer dos Cursos, com approvação, conseguirão o gráo de Bachareis formados. Haverá tambem o grão de Doutor, que será conferido áquelles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e sò os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes. - FONTE

MAS TAMBÉM TEMOS AS PESSOAS QUE EXIGEM SER CHAMADAS ASSIM POR UM ALEGADO MÉRITO.

Como deve ser o caso do exemplo citado acima, tem profissionais que realmente exigem ser chamados desta forma por que querem requisitar o título sem ter feito doutorado.

E isso é uma prática que deve ser combatida, porque empurrar um título goela abaixo seja de quem for é um ato de segregação. Pelo que entendi, a intenção de Dom Pedro era destacar as pessoas que tinham ensino superior, valoriza-las e talvez assim incentivar que mais pessoas fizessem o mesmo.

Porém, muitas dessas pessoas que "exigem" esse tratamento querem ser, na verdade, separadas do resto da sociedade, como se estivessem numa espécie de pedestal. Isso até é verdade se olharmos de um ponto de vista pragmático, afinal de contas num país em que apenas 14% da população têm curso universitário, o portador do canudo canudo realmente é um ser "especial".

Mas ninguém deveria "tirar onda" por ter sido privilegiado, pois, salvo exceções, o que dá acesso ao tal do papel é condição socio-econômica da família de onde você veio, ou seja: sorte. E nem me venham aqui com papo de "meritocracia" porque isso dá conteúdo pra outro artigo inteiro.

Mas eu costumo dizer que "se você sempre tem que explicar que é algo, é porque na verdade não é", isso porque se você precisa impor a sua importância é um sinal claro de que, talvez, você seja tão importante assim.

EXISTEM DOIS DOUTORES!

O fato é que existem dois doutores no Brasil: um é o título acadêmico, defendido pelas instituições de ensino, e o mais importante: pelos dicionários da língua portuguesa! E o outro é o pronome de tratamento, defendido pelas tradições, formalidades e quem acha que precisa disso.

Mas hoje em dia pra ser chamado de "doutor" (ou seria dotô?) é só estacionar um carrão num local onde haja flanelinhas. Não precisa nem saber escrever, é só ter um bom carro e achar o lugar certo. Porém vivemos num mundo de formalidades, e elas fazem parte da nossa cultura.

Entre os advogados, dentro dos ritos jurídicos, ninguém precisa implicar com o advogado que chama o colega de trabalho de doutor, mas o cara que chega num lugar fora de seu aramo de atuação exigindo assim ser chamado precisa repensar algumas coisas.

Será que Dom Pedro voltaria atrás em seu decreto se soubesse da confusão que causou?

Os códigos de ética que exigem isso dos profissionais alegam que é preciso se apresentar assim para valorizar a categoria. Mas por que não nos valorizarmos fazendo um bom trabalho e assim adquirindo o reconhecimento do público?

Aliás, conheço muitos doutores (com título!) que preferem ser chamados de professores doutores, ou até mesmo de apenas professores (que é até mais bonito, né?) pra evitar essa confusão que se criaria se todo mundo que acha que tem que ser chamado de doutor realmente fosse chamado dessa forma. Ninguém ia saber mais quem é médico, advogado, acadêmico ou até mesmo engenheiro. Afinal, todos iam ser doutores.

OUTRA ALEGAÇÃO: FORMAÇÕES ACADÊMICAS INTERNACIONAIS.

Em países como os EUA o sistema acadêmico é diferente do nosso, que segue os modelos franceses onde temos a graduação (ou o bacharelado), seguido do mestrado e doutorado. Por lá, realmente, quem se torna médico, ou se forma em áreas da saúde como a psicologia, tem que fazer um curso que equivale ao doutorado.

Lá na gringa o nome da série é "House M.D.", isso por que ele é um "Medical Doctor"!

No entanto, apesar das alegações, principalmente de uma galera do direito, o curso que se faz nas universidades brasileiras confere o título de bacharelado em direito, e não doutorado.

Algumas coisas têm mudado nos últimos anos. Eu por exemplo, ao terminar minha faculdade de psicologia me foi conferido o título de "psicólogo" e não de bacharel em psicologia, nem mesmo de licenciatura, títulos que antes vinham no pacote e que agora devem ser cursados separadamente.

Portanto o correto para nós é se apresentar como no título do meu site: Tiago Cabral, Psicólogo.

Mas pra quem pretende trabalhar fora do país isso aumenta ainda mais a confusão, pois muitos órgãos regulamentadores de classe estrangeiros acabam exigindo o título de doutor para exercer uma profissão que por lá consiste num curso de 5 anos ou menos, enquanto aqui no Brasil, para se conseguir tal título a pessoa precisa estudar por mais dez anos.

RESUMINDO:

Minha grande conclusão é que, sendo bem arbitrário, quem quer ser chamado de doutor é quem não tem o tal do título. Por outro lado, vejo muitas pessoas que têm Ph.D ou mesmo o doutorado comum que se apresentam como professores. Isso porque a polêmica causada por quem não tem o titulo cria uma confusão tão grande por aqui que as pessoas que têm o "direito" de assim serem chamadas estão correndo da palavra.

O fato é que precisamos lembrar que, no fim das contas, aqui no Brasil DOUTOR É UM TÍTULO ESTRITAMENTE ACADÊMICO, ou seja, quem deveria se interessar por ele é quem trabalha, justamente, na área da educação. Ou seja: professores, pesquisadores e afins. Até por que, se você pegar a origem da palavra, vemos que ela vem do latim docere que significa nada menos do que "ensinar".

Se você quer atestar que o conhecimento em direito ou em qualquer área da saúde, se sobrepõe ao conhecimento de qualquer outra área do Ensino Superior; ou que por você ser formado nessas áreas você é mais importante do que uma pessoa que tenha qualquer outro título acadêmico, na boa? Você precisa repensar seus objetivos enquanto profissional.

REFERÊNCIAS:

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