A psicanálise em West World - ou o debug da mecânica do trauma


Começo este artigo me repetindo, que ano incrível 2016 foi para a ficção científica. E o mais interessante é que, seguindo o caminho já previsto pelo autor Philip K. Dick e até mesmo em algumas falas de Alan Moore, a ficção tende a se tornar cada vez mais introspectiva.

CUIDADO, ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS

Baseada num filme escrito pelo mesmo autor de Jurassic Park, o escritor e roteirista Michael Crichton, Westworld é uma série ficção científica do canal HBO que nos conta a história de um parque temático que simula o velho oeste, onde as pessoas vão para realizar seus desejos mais sórdidos, posto que o local é habitado por androides que aos poucos começam a se tornar auto-conscientes.

A NARRA TIVA.

A história nos é apresentada através de diversos personagens, como a androide Dolores (Evan Rachel Wood), funcionários como o Ford (Antony Hopkins) que é co-criador do parque, dos androides e das histórias que se passam dentro dele, e envolvendo inclusive a de um dos funcionários do parque, Bernard (Jeffrey Wright) que descobre ele próprio ser um dos androides construídos para "animar" o parque, que na série são chamados de "anfitriões".

A série se vale de uma narrativa que se passa em dois momentos temporais distintos, o que nos é revelada como tal apenas no fim da primeira temporada, é recheada de referências visuais e narrativas a outras obras, como o próprio Jurassic Park, além de músicas consagradas pela cultura pop.

Sendo que, o principal conflito é o fato de os androides habitados pelo parque estarem tomando consciência e tentando fugir do mesmo, o que representa perigo aos protagonistas humanos.

CORRIGINDO FALHAS

Em referência a psicanálise logo a princípio é interessante perceber como, muitas vezes, a forma como os funcionários do parque corrigem as falhas e até mesmo criam as personalidades dos androides que é através do diálogo.

Freud descrevia a psicanálise como a "cura pela fala", e também nos descrevia a ressignificação de eventos traumáticos através de construção de um novo "texto" sobre eles. Mas o cerne desta análise reside nos episódios finais.

A MECÂNICA DO TRAUMA.

Em Westworld, nos é dito pelo personagem Ford que a essência da auto-consciência dos androides são suas memórias, mais especificamente os traumas. Não é atoa que nos é revelado que a base da personalidade do personagem Bernard é a morte de seu filho, e quando a androide Maeve (Thandie Newton) quer que seu trauma seja apagado, lhe é dito que se isso for feito ela deixaria de ser quem é.

Aliás, é importante ressaltar que o despertar desta personagem se dá através da morte da sua filha, que, após uma atualização do software dos androides descrita como "improvisos", esta memória é capaz de resistir até mesmo a "formatação" da mente da androide o que é inteiramente psicanalítico.

Freud nos descreve que o trauma rompe as barreiras da mente, fazendo com que a energia psíquica não possa ser controlada. Ele descreve nossa mente como um equilíbrio entre o desejo e a lei simbólica que é o que nos controla e nos faz viver em sociedade.

Mas em Westworld essa lei é muito mais do que simbólica. 

Ela é tangível, é física, e a única forma de superar-la é criando uma emoção tão forte que fica gravada na mente de modo que não pode ser apagada ou sobrescrita.

É importante lembrar também que, na cena subsequente a morte de sua filha, a personagem Maeve tem sua mente descrita como "fragmentada". Isso porque o trama é também uma forte base para a esquizofrenia que é a desorganização total e permanente da mente humana. 

A forma como a psicanálise vê a loucura é herdada da semiologia: é só imaginarmos que nossa mente é um dicionário onde cada palavra está ligada a um significado. A loucura é como se tomássemos este dicionário e embaralhássemos as palavras, desconectando-as de seus significados e as atribuindo aleatoriamente outros.

É por isso que muitas vezes vemos, principalmente nos casos de esquizofrênicos, sintomas como delírios auditivos, ou mesmo visuais, pois a mente fragmentada dessas pessoas, que no caso a psicanálise descreve como psicóticos, não consegue processar seus pensamentos de forma "linear" e muitas vezes não os identifica como seus.

Um trauma pode fragmentar a mente, no entanto o processo de "desfragmentação" não existe.

Porém, em Westworld temos a cena mais simbólica onde a personagem Dolores adquire a autoconsciência. Ao longo da narrativa nos é dito que os personagens ouviam o tempo todo a voz de seu criador (Arnold), no entanto, esse ruído cognitivo nos é revelado no fim da temporada como a voz dela mesma. Dolores estava o tempo todo ouvindo seus próprios pensamentos. O que é, de certa forma uma reversão dessa desfragmentação do eu.

E o importante é que, parte da construção da mente dos androides é feita em diálogos com seus criadores, é por isso que vemos o tempo todo, nos delírios Dolores conversando com Arnold e quando ela ganha consciência o que ela vê na cadeira diante de si a princípio é ela mesma, e logo em seguida o assento está vazio, demonstrando que sua mente se apropriou dessa voz, mesmo que, talvez estas palavras não fossem inicialmente dela.

Boa parte da associação livre, a técnica terapêutica criada por Freud, baseia-se na projeção do paciente no analista. Isso significa que, o lugar do analista precisa estar vazio ao fim da terapia. Ele precisa receber essas projeções e permitir ser um espelho para que o analisado se veja, e perceba que, no fim das contas, debaixo de todos os sintomas e angústias, ele estava a ouvir sua própria voz.

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