Fui no ensaio geral da abertura das olimpíadas Rio 2016


Sou preto, segundo a polêmica estatística do IBGE "já fui" pobre, e na alma ainda sou favelado. Nascido e crescido na periferia, estudando boa parte da minha vida em escola pública sou um dos poucos privilegiados dentre os que ali cresceram a ter ensino superior, já ter viajado pra fora do país e ir morar num local mais central após conseguir um "bom emprego" (aspas infinitas aqui).

E ontem, eu estava na festa dos ricos. Graças a roda da fortuna, ontem vi o ensaio geral da abertura das olimpíadas Rio 2016 (TM)

A segurança era impecável! O exército estava presente, helicópteros rodeavam o maracanã, o templo do esporte mais adorado pela população. Os muros eram altos e a burocracia para entrar era disciplinar.

Uma foto publicada por Tiago Cabral (psicologo nerd) (@psicologonerd) em

Tudo isso para garantir que nenhum pobre ousasse se aproximar.

Mas eu estava ali. E mesmo lá dentro, não me intimidei com as camisetas de R$100 ou mesmo com um refrigerante de 350ml de R$8. Afinal, como dizia o narrador no mega-fone, este era o maior espetáculo da terra.

Nas entrelinhas entendi que era um circo, ou como narrou o figurante que representou o Michel Temer durante o ensaio: "uma Olim-Piada".

Um vídeo publicado por Tiago Cabral (psicologo nerd) (@psicologonerd) em

O povo fora bem representado na arte: como índios, escravos, ladrões e saltadores de prédios.

Afinal de contas, mesmo que se pedisse para não divulgar nenhuma foto hoje o que mais se fala é da cena que presenciei onde num desfile, a famosa "Gisele" será "abordada por um pretinho" que em seguida é perseguido por "homens de preto" para logo em seguida receber guarida da própria modelo. 

Na longa e entediante entrada das delegações tudo vira um grande carnaval.

Com direito a cores, passistas, e muito samba os atletas entram no maracanã exibindo suas bandeiras enquanto são servidos e orientados pelos brasileiros dando o tom da festa olímpica carioca mostrando exatamente o lugar que o povo "não-pagante" vai ocupar.

Mas tudo isso pode ser uma interpretação artística deslavada de um "esquerdista".

Toda alegoria artística pode ser interpretada da forma que a audiência quiser, logo, quem sou eu para julgar? Apenas um estranho no ninho trazendo sua visão não-civilizada da realidade diante de um evento tão grandioso.

Talvez a atitude correta fosse deixar o queixo cair diante de tanta luz, som e cores e a agradecer a oportunidade de sentar na mesma mesa que os donos da festa, a crista da sociedade e assim aceitar com gratidão os espelhinhos que me deram em troca do ouro da minha terra.

Mas, poucos se esquecem que o maior erro que um governo pode cometer é deixar o pobre estudar, por que quando ele estuda, ele acaba uma hora ou outra parando de se deslumbrar, e por conseguinte, de se conformar...

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