O Ninja da Pedra da Coreia - outro caso de Psicologia Social


A esquizofrenia é a fragmentação da mente do sujeito. Freud a descreve como o cristal, que uma vez partido, nunca mais volta ao estado original, por mais que se remontem as peças.

No caso de F., a fragmentação começou cedo, naquela que é tida como a "célula mater" da sociedade: a família. Tida por muitos autores como a origem das primeiras representações sociais a família, em suas várias formas de existência, é o primeiro ambiente social onde o sujeito convive.

Para a psicanálise a dissociação do sujeito de sua mãe é que cria, de certa forma um "eu".

F. passou por adoções, retornou num outro momento para a sua família original, mas nunca tivera o sentimento de pertencimento a nenhum desses núcleos. Durante este tempo, desenvolveu certas complicações psicossociais, tendo sido atendido no CAPS de sua cidade.

Não é atoa que, em situação de rua na cidade onde trabalho, ao chegar na instituição F. tinha por mania chamar todos os funcionários de "mãe" ou "pai". Ele já havia aberto surto, e em seu discurso descarrilado acreditava que tinha de proteger os trabalhadores que o atendiam, pois ele havia associado que estes eram sua família.

Apesar do histórico de acesso aos serviços de saúde mental, acreditamos na época que um dos fatores que tenha ajudado na abertura do surto fora o uso abuso de substâncias, dentre elas, CRACK. Entre outras histórias de sofrimento, ele também nos relatou ter passado por outras instituições como abrigo para crianças e adolescentes, instituições psiquiátricas e, pra completar o roteiro típico no Brasil, foi um integrante do sistema carcerário nesse processo não sistematizado de combate a loucura, que inclui, mais recentemente, o SUAS.

Uma vez, para convencer F. a tomar suas medicações eu tive que fingir que também as tomava, para provar para ele que não fazia mal. E realmente não fazia, porque mesmo que tomasse doses "cavalares" de medicações ele continuava agitado, colocando a própria vida e a de outros usuários em risco.

Relatou que esteve um tempo em São Paulo, onde teria recebido seu treinamento ninja na Pedra da Coreia. Ás vezes F. gostava de demonstrar suas habilidades e rolava no chão sem se importar com a higiene de suas roupas.

Ele levava muito a sério o mantenimento da ordem na instituição, entrando constantemente em conflito com os outros usuários por conta disso.

Noutra vez, em um desses conflitos, houve a necessidade de chamarmos a segurança, e foi então que F. deixou de ser Ninja, e vestindo um casaco cinza se tornou policial. Essa foi a segunda vez que andei de ambulância enquanto psicólogo, pois a situação estava agora insuportável e tivemos de levá-lo para atendimento médico para segurança dele mesmo e dos outros usuários.

Felizmente, nosso vínculo permitiu que eu fosse com ele, mesmo em surto, mesmo agressivo. E se eu não tivesse ido, talvez ele tivesse voltado pra rua e abandonado a instituição.

O Ninja teve de ficar contido no ambulatório de saúde mental, e finalmente ele conseguiu tomar os medicamentos de forma sistematizada, coisa que não acontecia, por mais que a gente tentasse de todas as formas.

O trabalho em rede fora fundamental neste caso, já que precisávamos do atendimento psiquiátrico que inexiste na nossa instituição que, acreditem se quiser, tem cunho "social" e não de saúde. E a internação psiquiátrica pode ter salvo sua vida, já que o Ninja era visto muitas vezes correndo entre os carros e desafiando as pessoas na rua.

Com o tempo, e a medicação sistemática, F. se estabilizou e deixou de ser Ninja. Passou a receber visitas da família adotiva e da biológica, após muito trabalho social da nossa equipe técnica. 

Hoje ele é acompanhado somente pela saúde, conquistou um benefício e mora sozinho.

Isso me faz me perguntar sobre a luta antimanicomial, ou mesmo se o plano que foi idealizado para o fechamento dos manicômios está funcionando, já que vejo muitos CAPS que trabalham de forma precária, isso quando funcionam. Também percebo que a loucura continua sendo cada vez mais "institucionalizada", só que além das paredes dos infames manicômios; pois agora ela é criminalizada ou socialmente higienizada.

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