O santo bacalhau da sexta


Hoje é sexta-feira santa. Dia de penitência para os católicos, afinal de contas se deve fazer jejum durante a manhã e não comer carne durante todo o dia. Daí surgiu a tradição de se comer peixe nesse dia, aqui no Brasil, especialmente o tão supervalorizado bacalhau.

Eu vi no dia de hoje nas redes uns dois ou três posts de pessoas se vangloriando de comer carne nesse dia. Nada contra, eu acho que o feriado é religioso, mas você faz o que quiser dele. Aliás, eu já vi até gente que faz churrasco nessa data só pra mostrar quanto eles são "contra o sistema religioso opressor" ou que faz a tal churrascada simplesmente porque a carne fica mais barata nessa época. Eu vou admitir, já devo ter participado de algum churrasco desses nos meus "anos rebeldes". Mas depois que eu fiquei mais velho eu repensei algumas coisas.

Eu sou de uma família católica praticante que preza muito pelos valores da igreja e sempre procura ajudar o próximo e seguir os ensinamentos de Jesus o máximo que pode sempre, acima de tudo fazendo o bem.

Hoje eu não me considero uma pessoa religiosa, mas eu aprendi a valorizar certas tradições. A semana santa e os feriados católicos, na minha opinião, são mais do que uma instituição religiosa. Hoje em dia eles fazem parte da história e da cultura do nosso país.

Aposto que muita gente que está lendo pode não ter vivenciado isso. Mas, quando eu era pequeno, a comunidade onde eu morava girava em torno da igreja. Então o ano era praticamente contado através dos feriados religiosos, que, na minha opinião foram inventados para catequizar as pessoas humildes. Durante o ano, na igreja católica, eles contam a história dos evangelhos através das datas e dos rituais realizados nelas.

Porém, como centro comunitário, a igreja do bairro onde eu morava também era (e talvez ainda seja) um centro político daquela comunidade. Afinal de contas eu vi muitas mobilizações sociais saírem dali de dentro. Aliás, se a gente for falar das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil isso dá assunto pra um livro inteiro, já que muita gente não sabe que, apesar de serem filiadas a uma paróquia (ou Matriz) elas são bem independentes e, inclusive, estimuladas a ser autônomas no que se refere a questões sociais e políticas.

Quando eu era pequeno me lembro da quaresma, como era um tempo diferente dos demais. Sim, havia muita proibição, principalmente pras crianças, eu também vivi isso. Mas pelo menos na minha família tudo era contextualizado, tudo havia um significado, uma tradição, ou seja, um por quê; e haviam coisas boas também. Os adultos contavam histórias de terror, alegando que "na quaresma o mal ficava solto no mundo e por isso as pessoas deviam rezar mais", e foi assim que eu conheci muita coisa do folclore regional.


O tal do bacalhau também é uma tradição que acabou sendo incorporada na minha família, e mesmo hoje eu não morando mais com meus pais, eu fui lá comer o referido prato, que é feito em família e apreciado da mesma forma.

No fim das contas, a sexta-feira santa e outras tradições católicas deixaram de ser, na minha opinião, posse da igreja do santo padre, e passaram a ser patrimônio cultural brasileiro. Tudo que envolve a páscoa e a quaresma tem muito de Brasil: as novenas, os teatros da paixão de cristo, as procissões...

Por isso, tá valendo comer bacalhau ou peixe hoje, mesmo que você seja ateu, mesmo que você tenha "pecado" o ano inteiro, mesmo que você seja evangélico. E não se esqueça, que se você quiser fazer aquele churrasco especial também tá liberado. O que não vale é a gente querer mandar na vida do outro, ou quem sabe menosprezar tradições que podem fazer parte da cultura do país onde você moral

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