A morte de Robin Williams e um FAQ dos transtornos psiquiátricos


Muita gente tem uma visão errada sobre transtornos psiquiátricos, afinal de contas eles são um tipo de doença que a ciência tem dificuldade de explicar e quando até mesmo especialistas têm dúvidas ao falar sobre algo, é óbvio que o senso comum irá cometer gafes imperdoáveis.

Com a trágica morte do ator Robin Williams eu vi muita gente falando coisas absurdas sobre transtornos psiquiátricos, principalmente no que se refere à depressão.

Por isso decidi fazer aqui um FAQ (Dúvidas Frequentes) que as pessoas têm sobre transtornos psiquiátricos, lembrando sempre que a depressão crônica é um deles.

#1. "Ah, ele adquiriu depressão crônica porque usava muitas drogas".

Na verdade, eu fiz um curso sobre drogas e psiquiatria no qual se disse o contrário: geralmente pessoas que têm transtornos mentais são mais propensos a ingressar no mundo das drogas do que as pessoas comuns. Aliás, pesquisas comprovam que a maioria das pessoas que acabam no mundo das drogas já possuíam transtornos psiquiátricos antes começaram a usar.

#2 "Isso é falta de vergonha na cara. Se ele fosse realmente doente não conseguiria ter uma carreira de ator"

O que eu vou dizer a seguir vale pra muitos transtornos psiquiátricos. Muita gente pensa que um portador de um transtorno mental não é capaz de amar, trabalhar e conviver em sociedade. Na verdade, são poucos transtornos que deixam a pessoa totalmente incapaz. Na maioria deles, a pessoa tem apenas algumas funções cognitivas comprometidas, ela ainda é capaz de realizar muitas funções da vida cotidiana, mas isso não torna o seu sofrimento menor.

O grande problema do transtorno psiquiátrico é que, salvo exceções, ele é uma doença invisível. Muitas vezes ele não aparece em nenhum exame médico ou coisa do tipo. Fica difícil pras pessoas compreenderem que o paciente psiquiátrico é uma pessoa doente. Mas para simplificar a situação imagine um cadeirante que trabalha. Ele realiza funções da vida cotidiana, mas ele não deixa de ser deficiente por causa disso. Afinal de contas, apesar de ser capaz de gerir sua vida, o cadeirante tem muito mais dificuldades de fazer isso do que uma pessoa normal.

No entanto, todos podem ver claramente o que justifica as dificuldades do cadeirante, enquanto que o paciente psiquiátrico tem uma doença invisível e difícil de compreender o que faz com que as pessoas nem sempre reconheçam sua dificuldade de fazer certas coisas.

#3 "Isso só acontece com pessoas negativas, é falta de família, falta de criação, falta de Jesus no coração! Aposto que ele era um desvirtuado! Ele optou pela saída dos covardes!

Esse discurso é o mais perigoso quando se trata de transtornos mentais. As causas desse tipo de doença ainda são indeterminadas, mas especula-se que seja uma mistura de aspectos biológicos como genética, além de aspectos sociais e cognitivos que culminam num transtorno. No entanto, há pouco que se possa fazer para evitar desenvolver uma doença dessas.

Não é falta de caráter. Pessoas com transtornos psiquiátricos como a depressão crônica - que parece ter sido o caso do Robin Williams -, são incapazes de enxergar o mundo como as pessoas normais. Não adianta todo mundo dizer "mas você só vê o lado negativo das coisas" ou discursos semelhantes, pois a pessoa é incapaz de pensar de forma diferente por causa da sua doença. Ele vive num mundo diferente do seu. E isso vale pra muitos outros transtornos.

Quando as pessoas a volta de um portador de um transtorno mental negam a doença isso pode dificultar muito a vida do paciente. A situação é chata, não só para a pessoa doente, mas para toda a família, por isso muitas vezes também é recomendado um acompanhamento profissional para a família do portador da doença para que eles possam saber como lidar com a situação.

#4 "Mas ele estava tão bem pouco antes de cometer suicídio..."

Muita gente não sabe disso, mas a maioria dos suicídios acontece justamente quando há uma melhora no paciente, isso porque a recaída muitas vezes tende a ser muito pior do que o estado no qual o paciente se encontrava antes de iniciar o tratamento. Além disso existem estados depressivos tão profundos em que o paciente não possui energia nem mesmo para tentar se suicidar, e quando ele melhora um pouco acaba por tentar suicídio.

#5 "A medicação e o tratamento vão torná-lo uma pessoa normal e ele vai poder nos retribuir por todo o sofrimento que nos causou enquanto estava doente".

Não.

Outra coisa que muita gente não sabe é que, a maioria dos transtornos psiquiátricos graves como a depressão crônica possuem tratamento, mas não cura. Geralmente será necessário realizar o acompanhamento para o resto da vida, mas há um lado bom: muitos pacientes psiquiátricos que fazem tratamento conseguem levar a vida como uma pessoa normal. Mas isso não os torna imunes a crises eventuais.

#6. Mais perguntas:

Tem alguma dúvida? Ficou algo mal explicado? Pergunta aí nos comentários que eu te respondo. ;)

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