Afinal de contas, psicologia é ciência ou não?


Recentemente, lá no Facebook, eu compartilhei um vídeo do excelente canal do pessoal do Jovem Nerd, o Nerdologia. Eu disse lá no "Face" que acredito que coisas como a "big data" seriam, na minha opinião, o futuro da psicologia.

Não sabe do que se trata? Assista o vídeo:



O problema é que lá no Facebook muita gente não gostou da minha opinião. Colegas, muitos deles psicólogos disseram que a "escuta clínica" tem papel fundamental no "olhar" do psicólogo. Outros ousaram dizer que tais pesquisas deveriam ser feitas por outros profissionais e que a psicologia deveria se dedicar a escuta e ao contato humano, ou seja, na promoção da subjetividade.

No entanto muita gente séria muitas vezes acaba escorregando em seus estudos e se atendo a muitos autores que são verdadeiros pensadores da psicologia e que têm seu papel importante na forma ção dessa área do conhecimento. Mas... Nem só de Pitágoras vive a física.

Não entendeu nada? Vamos prosseguir um pouco:

A PSICOLOGIA É CIÊNCIA OU NÃO?

Bom, o grande problema é que muita gente não sabe, mas a psicologia é uma ciência e isso é fato. No entanto, uma das principais ferramentas de atuação do psicólogo e a que geralmente é mais ensinada na universidade, e pela qual o psicólogo é mais conhecido é a tal da clínica psicológica (ou a terapia), que em muitos aspectos, não é ciência.

Mas, nem só de clínica vive o psicólogo. 

Várias áreas da psicologia como psicodiagnóstico, a parte da psicologia que estuda, valida e confecciona testes psicológicos se utiliza de métodos científicos, afinal de contas ele estuda padrões de comportamento que podem ser processados usando métodos estatísticos, e ainda assim estamos longe de uma prática que seja capaz de analisar completamente o perfil psicológico de um sujeito sem levar em conta um numero quase infinito de variáveis. Porém se mente humana ainda é tão nebulosa para ser estudada, o desafio de criar um método (exato!) para manipular a mente fica ainda maior! E o grande problema é que a terapia pressupõe, na grande maioria das vezes, uma mudança do estado mental do sujeito.

Estudos sobre a clínica são feitos todos os dias, mas ainda não existem métodos específicos para ela. Por isso existem diversas abordagens teóricas que o psicólogo pode seguir. Cada uma delas, na maioria das vezes, segue uma linha de raciocínio de um "pensador" que geralmente elabora um método que os demais psicólogos que se inspiram para clinicar.

Mas na grande maioria das vezes, cada psicólogo acaba tendo um método particular, já que até mesmo esses pensadores assumem que a prática clínica absorve muito da personalidade do psicólogo, e às vezes esta define muito mais a sua atuação do terapeuta que o método que ele segue.

A maioria desses pensadores da psicologia criaram seus métodos após anos e anos de prática. Muitos deles escrevem dezenas de livros, apresentam seminários e participam de discussões sobre sua prática. Porém, na grande maioria das vezes esses métodos são criados a partir da experiência pessoal desse pensador, da dedução e de estudos de casos. Ou seja, o método científico muitas vezes fica de fora dessa equação.

Isso não invalida a prática da terapia, mas a não autenticação deles por uma pesquisa metodológica os torna alvo de críticas ferrenhas da comunidade científica que as fazem com razão. No entanto, um psicólogo clínico que se preze está sempre estudando e se atualizando. Participando de grupos de estudos, palestras, discussões de casos e, sobretudo, sendo supervisionado por profissionais mais experientes.

Porém, o grande problema da clínica é que, por não seguir um método estritamente científico ela acaba dependendo do "feeling" do profissional, ou seja, de seus instintos e dons. O que acaba nos dizendo que nem todo aquele que cursa a faculdade de psicologia será um bom psicólogo clínico.

ENTÃO QUER DIZER QUE EU NÃO POSSO CONFIAR NUM PSICÓLOGO PRA ME TRATAR?

Claro que pode!

Práticas não-científicas (ou que não foram comprovadas ainda) estão presentes na realidade de muitas outras profissões igualmente importantes para a sociedade, mesmo aquelas que as pessoas costumam pensar que obedecem a métodos estritamente científicos. Afinal de contas existe um abismo gigantesco entre a teoria e a prática que talvez nunca sejamos capaz de ultrapassar essa barreira sem inserir nossas mentes em corpos robóticos, pois todo profissional que executa qualquer profissão é um ser humano passível de falhas e isso não é uma exclusividade do psicólogo, mas também do cirurgião que te opera, do piloto que está no comando do seu avião ou até mesmo daquela senhora simpática que lida com a sua comida!

Porém, sendo a clínica da psicologia uma prática que não obedece a métodos científicos, as chances de falha aumentam. Mas, como dito, isso não significa que ela é uma prática menor ou menos importante que qualquer outra forma de clínica.

A clínica médica, por exemplo, se vale de muito da experiência pessoal do profissional na hora de elaborar diagnósticos, pois nem todas as doenças podem ser detectadas através de exames laboratoriais e nem por isso a profissão merece menos crédito.

Mas isso não significa que o psicólogo deve se apoiar nessa desculpa para deixar de pesquisar e produzir conhecimento, senão deixamos de praticar a psicologia para praticar:

O PSICOLOGISMO.

Um psicólogo clínico que tenha consciência das limitações de sua prática nunca irá ignorar informações. Ele irá procurar atualizar-se sempre para afiar cada vez mais sua escuta e tornar mais eficaz sua prática.

Porém acreditar que um método clínico é definitivo, ou se sobrepõe aos demais já nos faz entrar no que eu considero o "psicologismo", que é acreditar que existe uma solução catalogada para todos os problemas humanos.

O psicologismo é exercido sempre que alguém determina qualquer coisa dentro da psicologia, como se fosse algo exato, coisa que NÃO EXISTE. Eu já cansei de ver gente dizer coisas como "olha lá, coçou o nariz está falando mentira", ou então "ele fuma porque teve problemas na fase oral".

Não há nada determinante na psicologia. Talvez nunca haja.

Transformar a psicologia numa ciência exata é uma tarefa tão complexa quanto desenvolver uma tecnologia capaz de fazer uma previsão exata do clima!

Além do mais, existe uma palavra para definir uma explicação definitiva e incontestável: dogma. E quando entramos  no campo da e da impossibilidade de falha abandonamos a psicologia.

CONCLUSÃO.

O psicólogo não deveria se gabar de enxergar o ser humano como uma "sujeito" e não como um mero "objeto de estudo". Na minha opinião enxergar uma pessoa como seu semelhante deveria ser obrigação de qualquer um que se considere "gente". Seja você um assistente social ou um engenheiro mecânico, o respeito à vida e a individualidade deveria estar presente na sua profissão, afinal de contas, isso deveria ser pré-requisito pra ser uma pessoa antes de ser requisito para ser um profissional.

Sobretudo, eu não acredito que a psicologia deva ser feita apenas de "números" como muitos dos meus amigos devem ter pensado ao ver o vídeo, mas eu acredito com força que eles podem ajudar muito a nossa prática.

Além disso, é preciso deixar bem claro que eu não estou aqui desprezando os "pensadores da psicologia". Eu os respeito, referencio e cito o tempo todo no meu trabalho. Mas isso não significa que eu vou ignorar novos métodos simplesmente porque métodos já praticados são exercidos.

Afinal de contas, como eu disse lá no começo do artigo, Euclides, Aristoteles, Pitágoras e outros grandes gênios da física e da matemática ainda são reverenciados até hoje e nós ainda estudamos seus métodos! Mas não é porque esses grandes pensadores existiram no passado que os engenheiros, físicos e outros profissionais das áreas exatas irão ignorar os conhecimentos de Newton, Einstein e quem mais vier depois deles.

;)

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