Por que 2001 é o melhor filme de ficção científica já feito

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Sinceramente eu não me lembro quando comecei a gostar de ficção científica ( ou Sci-Fi - abreviação de Science Fiction). Quando eu era pequeno não tinha muitos amigos nerds e na época não existia e internet. Eram os sombrios anos 90 e o mais perto de Sci-Fi que a gente chegava era algum filme do Arnold Schwarzenegger que passava na Globo, ou alguma coisa do tipo. Eu sei que gostava dessa parada. A ideia de imaginar o futuro e como as coisas seriam me fascinava.

Fui conhecer Star Wars e Star Trek já na minha adolescência, e também foi nessa época que mergulhei no sombrio mundo Nerd do Sci-Fi HARD, ou seja, clássicos da literatura do gênero como Azimov, Philip K. Dick e outros que conheci na internet e em alguns livros raros que tive a chance de comprar. Cheguei até mesmo a ler Frankenstein, que considero a primeira história de robô da literatura que conhecemos no século XX. E foi praticamente quando já era um jovem adulto que minha cabeça explodiu ao assistir 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Reconheço que talvez se tivesse conhecido esta verdadeira obra de arte na infância ou adolescência talvez não tivesse compreendido toda sua magnitude, apesar de que, com 15 anos eu já conhecia caras como Erick Von Daniken e Zacharia Sitchin que escreveram respectivamente "Eram os Deuses Astronautas" e  o menos conhecido, porém canônico "Décimo Terceiro Planeta". Aliás, eu vibrei sozinho na cadeira do cinema com a homenagem feita a obra de Sitchin no último filme de Star Trek, onde a aparição da enterprise quando Kirk decide salvar Spok provocar uma profunda mudança cultural nos habitantes do planeta Nibiru, nome que batiza o tal décimo terceiro planeta de Sitchin.

A profundidade de 2001 no entanto não está só nas referências ou na engenhosidade do roteiro, que aliás foi escrito por um outro grande nome do Sci-Fi: Arthur C. Clarke a quem atribuem a criação do conceito de satélite! Muito do mérito de 2001 também está na ousadia artística do filme, que apesar de ter longas 2:30h de projeção tem apenas poucos diálogos e conta boa parte de sua narrativa através de imagens e do simbolismo.

Além de tudo, 2001 é um filme aberto que exige um certo trabalho do espectador para apreciá-lo. Quando se trata de ficção científica (e de Kubrick) não basta só sentar na cadeira, trazer a pipoca e desligar o cérebro como se faz com um bom blockbuster. Este é um filme que te leva a pensar e completar a história por si mesmo. E é isso que a ficção científica faz, ela te faz projetar o futuro junto com o autor.

E por estes aspectos 2001 é o rei dos filmes de ficção científica. O espectador mediano não irá conseguir passar nem mesmo da primeira parte da projeção, já que o filme conta com longos planos que mostram cenários dígnos de um documentário do Discovery e, simplesmente, não tem nenhuma fala!

Acho interessante ressaltar que quando se trata de ficção científica hardcore você tem que estar preparado não para um bom enredo ou para bons personagens, mas sim para uma projeção o mais realista possível de como será o futuro. E isso envolve longas e enfadonhas explicações que são capazes de entediar as vezes até mesmo os maiores fãs do gênero. Acho interessante que neste filme a linguagem artística e visual utilizada por Kubrick para contar a história substitui a necessidade de explicação ao tornar visceral a experiência ao invés de intelectual.

Em nenhum momento a projeção tenta sequeira explicar a origem do monólito que liga as três partes da história. Ele simplesmente está lá, causando estranhamento e surpresa no expectador, levantando mais perguntas do que oferecendo respostas e deixando-o intrigado. O que eu me pergunto é: não seria esta a reação quer teríamos ao vislumbrar o futuro, nem que fosse apenas por 2:30? Por mais explicações que fossem dadas, será que um homem do século XIV seria capaz de entender o mundo de hoje?

Acredito que seja esta a experiência que Kubrick e Clarke passam nesse filme onde os personagens apenas flutuam confusos num universo gigantesco e alienígena construído nesse filme mostrando a ingenuidade e a fragilidade do ser humano diante do desconhecido.

Se você gosta de ficção científica e nunca assistiu 2001 você deve corrigir este erro imediatamente. Se você assistiu e não gosta desse filme deve se perguntar se gosta mesmo de sci-fi. Recomendo assistir o filme e depois continuar esse texto:

DAQUI PRA BAIXO O TEXTO SÓ É RECOMENDADO PARA QUEM JÁ VIU O FILME

O monólito é um dos grandes personagens do filme, que na minha opinião fala de um dos grandes aspectos que ajudaram a transformar aqueles macacos no que é a raça humana hoje em dia. Citei "Eram os Deuses Astronautas" e "O Décimo Terceiro Planeta" pois  acredito na teoria (que é embaçada pela continuação) de que os monólitos são ferramentas alienígenas que influenciam a evolução humana. Kubrick sempre deixou a interpretação do filme em aberto, e o fez sabiamente. No entanto, Arthur C. Clarke escreveu um livro e um continuação de 2001, onde esta teoria é corroborada.

Eu vejo o bebezão do final e todo o show  de cores e luzes que parece saído de uma viagem de LCD como um passo adiante na evolução da humanidade. Isso faz sentido, afinal de contas o monólito transformou o macaco em homem, e agora ele volta para transformar o homem em algo mais. E é pra isso que serve toda a sequência do início do filme. Ora, mas se a história é sobre alienígenas porque eles não aparecem? Eu acho que seria muito ingênuo e clichê um "disco voador" descer lá no meio do deserto e ensinar os macacos a habilidade de usar ferramentas. O monólito é discreto, é enigmático e na minha opinião é um artifício genial. Afinal de contas, ao contrário do que a cultura pop prega a gente não faz ideia de como uma civilização mais avançada que a nossa pode ser, e nem como os aliens vão se parecer. Então deixar essa estranheza no ar, essa perplexidade tem o papel de emular essa sensação de encontrar com algo completamente desconhecido. E esse é o papel do monólito.

A questão do uso das ferramentas atravessa o filme como um todo. Tanto os ossos utilizados pelos macacos que se transformam em naves dançando valsa pelo espaço, cenas como a caneta que flutua errante pelo interior da nave espacial e mesmo o HALL 9000 são cenas, objetos e personagens que nos levam ao tema do "uso das ferramentas".

Sobretudo o filme tem uma dimensão artística que nos mostra o quão frágeis nossa existência é em cenas como a que o astronauta mergulha no negrume do espaço e você sabe que ele vai morrer lá, a cena na qual o astronauta Dave tem que prender a sua respiração para entrar novamente na nave e tudo que a audiência pode escutar são os sons ofegantes emitidos por ele.

Além disso, Kubrick nos mostra com detalhes técnicos minimalistas como seria uma viagem no espaço antes mesmo do homem ter ido a lua!

Por esses e outros motivos, que se formos enumerar dá pra escrever um livro, eu acredito com força que 2001: Uma Odisseia no Espaço é o melhor filme de Sci-Fi já feito. E tenha certeza que eu não estou sozinho nessa.

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Comentários

  1. Tiago Cabral,a cena da câmera focando os lábios como o HAL visualizando,é digna de aplausos.

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  2. outra coisa que gosto,as luzes refletidas na face de Dave.

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