Maculada Oferenda

XenaEu comecei a escrever básicamente com meu livro Crônicas de um Tempo Perdido - que ainda não terminei. Mas por um período decidi treinar com a elaboração de Fan-fics. Nessa época nasceram histórias como "A Vingança do Seu Madruga", Filha do Trovão (X-Men - Tempestade) e este conto, que é um prequel da história de Xena - A Princesa Guerreira, redesenhado por mim. Este conto fez um relativo sucesso nas comunidades do Orkut da época relacionadas ao assunto, mas havia se perdido no meu primeiro e falecido blog "Paradigma Virtual". Clique no link a seguir para ler o conto na íntegra:


Xena


~Maculada Oferenda~


Por TIAGO DA SILVA CABRAL.


O ruído do atrito da pedra com a lâmina da espada se espalhava por toda a floresta. Os animais, se já não afastados pela fogueira acesa, já não se aproximavam pelo barulho: agudo, incômodo e áspero emitido sempre numa constância precisa de intervalos. Quando o som da lâmina ainda vibrando ecoava suave pelo ar até ser seguido de um novo ruído áspero da pedra em atrito com o metal polido. O ar úmido já fazia aparecerem gotas de orvalhos nas sombras, que refletiam timidamente a luz dourada da fogueira e a figura solitária com sua espada.


Então, o ruído cessa.


Ela olha para a lâmina que reflete de volta o olhar azul celeste vindo de seus olhos. Aquela lâmina que já havia se sujado de sangue muitas vezes. Sangue inocente. Ela sabe que macular esta mesma lâmina com sangue culpado não vai abafar os sons das almas que atormentam seus sonhos. Mesmo assim ela continua.


Quem sou eu pra julgar quem é ou não culpado?


Mais uma noite sem sono; mais uma noite em que os sonhos bons não vieram confortá-la. Apenas o ressentimento e o remorso vieram visitá-la hoje. Então ela continua a afiar o motivo pelo qual ela ainda continua viva. A vingança?, não, ela já não existe mais. Perdeu-se entre o ódio e o medo, mas o fim a que ela veio continua: a batalha nunca termina pra ela. Então vem o sentimento macabro de que é apenas mais uma alma penada no mundo, um soldado sem exército enlouquecido por uma guerra que, pra ele, ainda não terminou.


Fecha os olhos, princesa, pois hoje à bondosa floresta te dará o abraço de boa noite, e te confortará enquanto as estrelas, cintilantes, contarão histórias belas e mágicas. Até que o próprio Morfeu se encarregue de trazer o mais belo dos sonhos pra você...


Embalada pela memória das palavras de sua mãe, ela então consegue um pouco de descanso. Em seus sonhos, imagens turvas e chamas que dançam por sobre as casas. Centenas de pés marcham como se fossem apenas um par. E uma noite fria e barulhenta na qual uma pequena garota acorda em meio a uma verdadeira guerra. Uma pequena e inocente, agora entre corpos sem compreender que aquelas figuras, inanimadas e banhadas em sangue. Agora estavam mortas. “Xena, venha pra cá!” ordenava sua mãe à porta de casa. A menina correu e abraçou a mãe. Nenhuma lágrima desceu de seus olhos ao ver o terreno de sua casa coberto de corpos. Ela simplesmente pensava que tinha feito algo errado pra sua mãe gritar.


– Onde está papai? Onde estão meus irmãos? – perguntou ela.


– Eles foram para a guerra, aquela que papai sempre fala. Foram lutar por nossas vidas, por nossas terras!


– Por que não podemos lutar também?


– O mundo é perigoso, minha filha. Ele tem muitas ameaças, e a guerra pode-se dizer que é a pior delas. Os homens são mais fortes, eles devem nos proteger, seria muito triste pra eles perder a mim e a você. Por isso eles enfrentam os perigos, pra nos proteger... – disse sua mãe abaixando pra falar com ela e a abraçando novamente. – O mundo é perigoso, e só eles enfrentam o perigo. Deve ser por isso que o mundo é deles, minha filha. Vamos entrar. O quintal está sujo de mais. –
E era como se o sol começasse a nascer e aquecer seu corpo enquanto ela abraça sua mãe. Quando ela dá o primeiro passo dentro de casa, o cadáver de um dos soldados agarra seu calcanhar.


NÓS SOMOS O PERIGO!!!


E então, uma mulher ofegante desperta com a espada em punho. O sol já havia nascido e a fogueira se apagado. Era hora de partir.




2.


            Apolo já trazia o sol acima das copas das árvores quando ela partiu. Cada passo era cauteloso, seus ouvidos atentos a qualquer ruído. A vida lhe ensinou a suspeitar de tudo e de todos. Olhando para o chão ela se agachou e viu uma pegada onde olhos não treinados não poderiam ver. As simples folhas amassadas de certa forma davam a ela o tamanho, o peso e o rumo de seu dono. Ela tocou o chão e sentia a como se pudesse tocar os pés daquele que passara por ali a pouco tempo, seu alvo, seu objetivo. Ela aprendeu isso como se fosse de pouca utilidade, um pai ensinando à filha aquilo que achava que ela nunca iria usar:


Sinta, sinta os pés de quem passou por aqui;


Sinta, a dor das folhas amassadas, e elas lhe contarão quão pesado era o dono das pegadas;


Sinta o passo, e veja onde pés apressados ou não queriam chegar;


Escute a voz de gaia e ela lhe dirá onde o dono do rastro agora está.


Ela seguiu então para nordeste, indo para a direção de lembranças. A floresta era quieta e acolhedora. As sombras eram atrativas e seguras, mas nelas moravam lembranças, fantasmas que tomavam sua mente apenas com o fechar momentâneo dos olhos.


O som das espadas parecia ainda viajar no ar.


“Não.”


Um homem já grisalho cambaleia a porta de sua casa, sua mãe tentava socorre-lo.


Eles investiram sobre nós com tal fúria como se incitados pelo próprio Ares.”


Uma lâmina brilha sob a luz da lua na escura noite, quando chamas pareciam ter caído dos céus sobre as moradas em Amphilopolis e o homem dá seu último suspiro enquanto suas forças desvanecem na tentativa de tocar pela última vez sua filha.


“Pa...Pai..”


Os soldados entraram na casa. Estavam sujos de sangue que já estava seco por sobre suas vestes. Olhares profundos e perversos olhavam em volta até pousar sobre sua mãe, todos eles. “Filha, saia...”, disse sua mãe quase sem coragem o suficiente para falar. “Filha, por sua mãe, saia! É o meu último pedido, seja forte, mais forte do que eu... Corra!”. O cheiro pútrido daqueles homens já havia tomado a humilde casa. As chamas das tochas tremeluziam enquanto o vento frio vindo da porta aberta lutava contra elas. Como se levada por aquele vento, ela correu sem pensar. Correu segurando o choro, correu tapando sua boca tentando ser forte, mais forte do que aquilo que sentia. Um dos soldados fez menção em segui-la, mas um outro o deteve com um gesto e fez um sinal mostrando a mulher, que agora se movia levemente apenas dando passos para traz enquanto os homens se aproximavam...


As ruas eram frias à noite, e a comida era pouca;


Os anos se passavam enquanto estrangeiros roubavam aquilo que era da terra deles;


Navios chegavam vazios e saiam cheios;


A escória passou a ser vista no rico portuário, onde muitas riquezas eram dadas aos que não mereciam;


Athenas nos abandonou...


Entre o povo que se reunia para tentar sobreviver, ela comeu pouco e mal. Restos dados com segundas intenções a uma quase moça, já na alvorada da puberdade...


“Atenas entregou Amphilopolis a Phelipe II”, comentavam alguns poucos temerosos nas sombras.


Os deuses não olharam para nós... A justiça de Athena não chegou até Amphilopolis.


Piratas. Sujos e nojentos apareciam distorcidos como sombras formadas por uma tocha ao vento.


Carne fresca para se vender. Quem não precisa de prostitutas? Ainda mais uma tão jovem e bela quanto essa...


Percebeu finalmente que sua infância já havia sido furtada há muito tempo, se viu mulher mal sabendo se distinguir da menina. Ela ainda era inocente, correndo levada pelo vento frio da noite, mas então a mulher a possuiu e revelou que a menina nunca poderia voltar para casa.


Seja forte, minha filha... Mais forte que eu...


Quando deu por si, já estava presa junto à carga de um navio. Ao olhar em volta ela viu dezenas de olhares tristes, magoados pela subvida nas trevas da cidade esquecida pelos deuses. Ambas com um passado e um provável destino em comum: o sofrimento.




3.


O hálito gélido da noite já pousava sobre a floresta enquanto o sol se punha no horizonte dando início a mais uma noite: o momento ideal para atacar aquele que, solitário, se preparava para descansar a noite.


Por que ele viaja sozinho? Há algo de estranho...


O momento era ideal: ele se preparava para assar algo que caçara durante o dia para se fartar e repor as energias gastas num longo dia de viajem. Ela desembainhou a espada sorrateiramente, nem mesmo o mais atento guerreiro poderia ter percebido. O líder de um grupo de saqueadores que ela não conseguiu deter eficientemente. Um fim devia ser dado àquela maldade.


Será que estou mesmo certa?Ele pode redimir como eu...


Não havia tempo para titubear, não agora.


Aproximou-se então o máximo que pode sem ser notada e preparou então um golpe fatal. Ela era encorajada pelas faces aterrorizadoras das vítimas daquele impiedoso vilão.


Impiedoso, não devo ter pena dele agora, se ele não teve para com os outros.


Ela sentiu a dor semelhante a uma ponta de espada penetrando em sua pele, mas era apenas um pouco mais delicada a arma que a feria. "Sentiu seu corpo amolecer enquanto caía sobre aquele a quem iria matar"


“Tão fácil quanto pegar um coelho numa armadilha”


A escuridão cobriu tudo, e nem mesmo a luz da fogueira tão próxima poderia alcançá-la.


Ela acordou com as mãos dormentes, amarradas com força e brutalidade com uma corda. Homens, uma dezena no mínimo, gargalhavam com maldade em suas vozes ásperas, algumas estridentes e agudas que eram para o ouvido como o som de algo pontiagudo se esfregando numa superfície polida, e outros tão graves quanto retumbar de tambores que agora roucos assemelhavam-se vozes de demônios antigos. Todos eles falavam e gargalhavam. O inferno em uníssono como uma orquestra sombria de instrumentos macabros. Até que aquele que ela iria matar percebeu o seu despertar. Ele, sentado a diante, deu um tapa no homem ao seu lado e apontou para ela. Aproximou-se então, tanto que ela podia sentir o cheio pútrido de seus dentes e sua suja barba tocar seu rosto, a repulsa a esse gesto foi instintiva. “Vejamos, se não é aquela que chamam de ‘princesa guerreira’, aquela que luta com tal ferocidade que parece abençoada pelo próprio Ares! ’, ao meu ver, essa dama não seria capaz nem mesmo de erguer uma arma! Quanto a Ares, ela deve ser mais uma de suas concubinas espalhadas pelo mundo, eu não daria mais”, disse ele sorrindo. “Ora, não vai nos agraciar com sua voz que deve ser tão suave quanto à seda, a julgar pelo belo rosto...”, riram os homens após ele, ironicamente, corteja-la.


Olhando em volta rapidamente, ela contou quantos soldados havia no local. Ao contrário do que pensavam, ela já esperava algo do tipo. A única surpresa foi a capacidade daqueles tolos homens de conceber um bom plano.


Subestimar um inimigo é sempre um erro, por mais fraco que este seja...


“Agora, chega de cortejos.”, disse ele já praticamente em cima dela. “Adivinhe por que não amarramos suas pernas? As manteremos suficientemente abertas para nos divertimos antes de acabar com você.”


Sobreviver, a primeira lição.


“É bom testar a mercadoria antes de vende-la!”, dizia o pirata ao seu capitão examinando sem pudor as mulheres que haviam capturado no porto que tinha acabado de deixar para traz. “Seu tolo”, grunhiu o capitão, o seu falar era grosso e ríspido. “Não sabe que pagam mais caro por virgens?” e saiu. Ele olhou perverso e cobiçoso para Xena, avaliando-a em cada detalhe: observou seu corpo belo e jovial, suas curvas suaves sob a pouca e rústica vestimenta. Seu rosto belo, mas de feições duras que o encarava com um assustado olhar azul. Ele coçou os piolhentos fios de sua barba e se aproximou lambando os lábios desejosamente. “Quem iria perceber? Por você vale a pena desobedecer ao capitão.”


Ela foi arrastada até um dos quartos do sujo e mal iluminado navio. Foi atirada sobre uma cama sob o olhar malicioso e perverso do homem, que logo começou a retirar seu cinto onde estava pendurada sua espada na bainha, objeto logo focado por ela. “Deixa-me ver bem o meu prêmio”, disse ele rasgando ferozmente as humildes roupas dela. Apavorada, recolheu-se na cama tentando cobrir-se, pois estava agora praticamente nua.


Ela fechou com força os olhos enquanto ele a observava com desejo.


Seja forte, minha filha, seja forte. Mais forte que eu.


Ela ainda podia ouvir os gritos lamentosos de sua mãe enquanto ela corria pela noite fria com sua casa se afastando as suas costas. Seus gritos só eram interrompidos por um esforçado “não olhe para trás”.


Mais forte do que eu...


Ela pode senti-lo tocando-a e seu hálito nojento poluindo o ar enquanto soprava por seus dentes produzindo um fraco chiado quando ele ordenava que ela não fizesse barulho.


MAIS FORTE DO QUE EU!


Como uma cobra ela se esquivou do homem que se deitava sobre ela.


Sobrevivência.


Suas mãos, livres, pegaram à espada que foi instintivamente desembainhada. Ele, não teve tempo para nada além de gritar enquanto ela o golpeava diversas vezes, até que parou de gritar e se mexer. O capitão abriu a porta e viu: um quarto banhado em sangue, assim como uma mulher segurando uma espada no mesmo estado. Assim como o seu corpo seminu iluminado pela fraca luz da única vela acesa sobre a escrivaninha diante de um espelho. O olhar dela para o corpo era frio e nada arrependido, como alguém que acabara de se vingar. Uma figura bela, tão formosa quanto uma ninfa, ou até mesmo na ousadia de um pensamento tão bela quanto à própria Afrodite e tão ameaçadora quanto o próprio Ares. “Devaneio!”, grunhiu o capitão surpreso. “Uma arma útil. Uma ameaça inexpressiva, quem sabe... Uma assassina nata?”


Agora, havia outro homem nojento sobre ela, e só as pernas desamarradas. Com três golpes ele estava inconsciente no chão, cerca de dez homens vinham na sua direção. O primeiro ela derrubou com um simples golpe, o segundo a derrubou enquanto ela se esquivava, mas uma espada estava sob suas costas, que ela usou para desamarrar as mãos. Em poucos instantes a cena havia se repetido, mas havia mais corpos e ela agora estava vestida como uma guerreira, mas o sangue ainda a adornava e acusava o que ela era.


“Assassina, uma bela assassina” propôs o capitão. “Seja uma dos meus”. Ela ergueu a espada para ele. “Não pense que terá tanta sorte quanto teve com esse idiota beberrão, aliás, eu mesmo estava pra fazer isso, mas a minha preguiça não deixou...”, completou sorrindo sob a densa e grisalha barba. “Este velho ainda tem seus truques. Truques que podem ser úteis a alguém com tanta determinação”, disse ele colocando a espada sobre o ombro num gesto relaxado. “Não quero que se deite com ninguém. Só quero que os que acreditem que a terão ao invés de despertar no calor do amor, amanheçam no frio da morte”.


A morte como meio de vida. Sobrevivência?





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Apolo já trazia o sol acima das copas das árvores quando ela partiu. Cada passo era cauteloso, seus ouvidos atentos a qualquer ruído. A vida lhe ensinou a suspeitar de tudo e de todos. Olhando para o chão ela se agachou e viu uma pegada onde olhos não treinados não poderiam ver. As simples folhas amassadas de certa forma davam a ela o tamanho, o peso e o rumo de seu dono. Ela tocou o chão e sentia a como se pudesse tocar os pés daquele que passara por ali a pouco tempo, seu alvo, seu objetivo. Ela aprendeu isso como se fosse de pouca utilidade, um pai ensinando à filha aquilo que achava que ela nunca iria usar:


Sinta, sinta os pés de quem passou por aqui;


Sinta, a dor das folhas amassadas, e elas lhe contarão quão pesado era o dono das pegadas;


Sinta o passo, e veja onde pés apressados ou não queriam chegar;


Escute a voz de gaia e ela lhe dirá onde o dono do rastro agora está.


Ela seguiu então para nordeste, indo para a direção de lembranças. A floresta era quieta e acolhedora. As sombras eram atrativas e seguras, mas nelas moravam lembranças, fantasmas que tomavam sua mente apenas com o fechar momentâneo dos olhos.


O som das espadas parecia ainda viajar no ar.


“Não.”


Um homem já grisalho cambaleia a porta de sua casa, sua mãe tentava socorre-lo.


Eles investiram sobre nós com tal fúria como se incitados pelo próprio Ares.”


Uma lâmina brilha sob a luz da lua na escura noite, quando chamas pareciam ter caído dos céus sobre as moradas em Amphilopolis e o homem dá seu último suspiro enquanto suas forças desvanecem na tentativa de tocar pela última vez sua filha.


“Pa...Pai..”


Os soldados entraram na casa. Estavam sujos de sangue que já estava seco por sobre suas vestes. Olhares profundos e perversos olhavam em volta até pousar sobre sua mãe, todos eles. “Filha, saia...”, disse sua mãe quase sem coragem o suficiente para falar. “Filha, por sua mãe, saia! É o meu último pedido, seja forte, mais forte do que eu... Corra!”. O cheiro pútrido daqueles homens já havia tomado a humilde casa. As chamas das tochas tremeluziam enquanto o vento frio vindo da porta aberta lutava contra elas. Como se levada por aquele vento, ela correu sem pensar. Correu segurando o choro, correu tapando sua boca tentando ser forte, mais forte do que aquilo que sentia. Um dos soldados fez menção em segui-la, mas um outro o deteve com um gesto e fez um sinal mostrando a mulher, que agora se movia levemente apenas dando passos para traz enquanto os homens se aproximavam...


As ruas eram frias à noite, e a comida era pouca;


Os anos se passavam enquanto estrangeiros roubavam aquilo que era da terra deles;


Navios chegavam vazios e saiam cheios;


A escória passou a ser vista no rico portuário, onde muitas riquezas eram dadas aos que não mereciam;


Athenas nos abandonou...


Entre o povo que se reunia para tentar sobreviver, ela comeu pouco e mal. Restos dados com segundas intenções a uma quase moça, já na alvorada da puberdade...


“Atenas entregou Amphilopolis a Phelipe II”, comentavam alguns poucos temerosos nas sombras.


Os deuses não olharam para nós... A justiça de Athena não chegou até Amphilopolis.


Piratas. Sujos e nojentos apareciam distorcidos como sombras formadas por uma tocha ao vento.


Carne fresca para se vender. Quem não precisa de prostitutas? Ainda mais uma tão jovem e bela quanto essa...


Percebeu finalmente que sua infância já havia sido furtada há muito tempo, se viu mulher mal sabendo se distinguir da menina. Ela ainda era inocente, correndo levada pelo vento frio da noite, mas então a mulher a possuiu e revelou que a menina nunca poderia voltar para casa.


Seja forte, minha filha... Mais forte que eu...


Quando deu por si, já estava presa junto à carga de um navio. Ao olhar em volta ela viu dezenas de olhares tristes, magoados pela subvida nas trevas da cidade esquecida pelos deuses. Ambas com um passado e um provável destino em comum: o sofrimento.




3.


O hálito gélido da noite já pousava sobre a floresta enquanto o sol se punha no horizonte dando início a mais uma noite: o momento ideal para atacar aquele que, solitário, se preparava para descansar a noite.


Por que ele viaja sozinho? Há algo de estranho...


O momento era ideal: ele se preparava para assar algo que caçara durante o dia para se fartar e repor as energias gastas num longo dia de viajem. Ela desembainhou a espada sorrateiramente, nem mesmo o mais atento guerreiro poderia ter percebido. O líder de um grupo de saqueadores que ela não conseguiu deter eficientemente. Um fim devia ser dado àquela maldade.


Será que estou mesmo certa?Ele pode redimir como eu...


Não havia tempo para titubear, não agora.


Aproximou-se então o máximo que pode sem ser notada e preparou então um golpe fatal. Ela era encorajada pelas faces aterrorizadoras das vítimas daquele impiedoso vilão.


Impiedoso, não devo ter pena dele agora, se ele não teve para com os outros.


Ela sentiu a dor semelhante a uma ponta de espada penetrando em sua pele, mas era apenas um pouco mais delicada a arma que a feria. "Sentiu seu corpo amolecer enquanto caía sobre aquele a quem iria matar"


“Tão fácil quanto pegar um coelho numa armadilha”


A escuridão cobriu tudo, e nem mesmo a luz da fogueira tão próxima poderia alcançá-la.


Ela acordou com as mãos dormentes, amarradas com força e brutalidade com uma corda. Homens, uma dezena no mínimo, gargalhavam com maldade em suas vozes ásperas, algumas estridentes e agudas que eram para o ouvido como o som de algo pontiagudo se esfregando numa superfície polida, e outros tão graves quanto retumbar de tambores que agora roucos assemelhavam-se vozes de demônios antigos. Todos eles falavam e gargalhavam. O inferno em uníssono como uma orquestra sombria de instrumentos macabros. Até que aquele que ela iria matar percebeu o seu despertar. Ele, sentado a diante, deu um tapa no homem ao seu lado e apontou para ela. Aproximou-se então, tanto que ela podia sentir o cheio pútrido de seus dentes e sua suja barba tocar seu rosto, a repulsa a esse gesto foi instintiva. “Vejamos, se não é aquela que chamam de ‘princesa guerreira’, aquela que luta com tal ferocidade que parece abençoada pelo próprio Ares! ’, ao meu ver, essa dama não seria capaz nem mesmo de erguer uma arma! Quanto a Ares, ela deve ser mais uma de suas concubinas espalhadas pelo mundo, eu não daria mais”, disse ele sorrindo. “Ora, não vai nos agraciar com sua voz que deve ser tão suave quanto à seda, a julgar pelo belo rosto...”, riram os homens após ele, ironicamente, corteja-la.


Olhando em volta rapidamente, ela contou quantos soldados havia no local. Ao contrário do que pensavam, ela já esperava algo do tipo. A única surpresa foi a capacidade daqueles tolos homens de conceber um bom plano.


Subestimar um inimigo é sempre um erro, por mais fraco que este seja...


“Agora, chega de cortejos.”, disse ele já praticamente em cima dela. “Adivinhe por que não amarramos suas pernas? As manteremos suficientemente abertas para nos divertimos antes de acabar com você.”


Sobreviver, a primeira lição.


“É bom testar a mercadoria antes de vende-la!”, dizia o pirata ao seu capitão examinando sem pudor as mulheres que haviam capturado no porto que tinha acabado de deixar para traz. “Seu tolo”, grunhiu o capitão, o seu falar era grosso e ríspido. “Não sabe que pagam mais caro por virgens?” e saiu. Ele olhou perverso e cobiçoso para Xena, avaliando-a em cada detalhe: observou seu corpo belo e jovial, suas curvas suaves sob a pouca e rústica vestimenta. Seu rosto belo, mas de feições duras que o encarava com um assustado olhar azul. Ele coçou os piolhentos fios de sua barba e se aproximou lambando os lábios desejosamente. “Quem iria perceber? Por você vale a pena desobedecer ao capitão.”


Ela foi arrastada até um dos quartos do sujo e mal iluminado navio. Foi atirada sobre uma cama sob o olhar malicioso e perverso do homem, que logo começou a retirar seu cinto onde estava pendurada sua espada na bainha, objeto logo focado por ela. “Deixa-me ver bem o meu prêmio”, disse ele rasgando ferozmente as humildes roupas dela. Apavorada, recolheu-se na cama tentando cobrir-se, pois estava agora praticamente nua.


Ela fechou com força os olhos enquanto ele a observava com desejo.


Seja forte, minha filha, seja forte. Mais forte que eu.


Ela ainda podia ouvir os gritos lamentosos de sua mãe enquanto ela corria pela noite fria com sua casa se afastando as suas costas. Seus gritos só eram interrompidos por um esforçado “não olhe para trás”.


Mais forte do que eu...


Ela pode senti-lo tocando-a e seu hálito nojento poluindo o ar enquanto soprava por seus dentes produzindo um fraco chiado quando ele ordenava que ela não fizesse barulho.


MAIS FORTE DO QUE EU!


Como uma cobra ela se esquivou do homem que se deitava sobre ela.


Sobrevivência.


Suas mãos, livres, pegaram à espada que foi instintivamente desembainhada. Ele, não teve tempo para nada além de gritar enquanto ela o golpeava diversas vezes, até que parou de gritar e se mexer. O capitão abriu a porta e viu: um quarto banhado em sangue, assim como uma mulher segurando uma espada no mesmo estado. Assim como o seu corpo seminu iluminado pela fraca luz da única vela acesa sobre a escrivaninha diante de um espelho. O olhar dela para o corpo era frio e nada arrependido, como alguém que acabara de se vingar. Uma figura bela, tão formosa quanto uma ninfa, ou até mesmo na ousadia de um pensamento tão bela quanto à própria Afrodite e tão ameaçadora quanto o próprio Ares. “Devaneio!”, grunhiu o capitão surpreso. “Uma arma útil. Uma ameaça inexpressiva, quem sabe... Uma assassina nata?”


Agora, havia outro homem nojento sobre ela, e só as pernas desamarradas. Com três golpes ele estava inconsciente no chão, cerca de dez homens vinham na sua direção. O primeiro ela derrubou com um simples golpe, o segundo a derrubou enquanto ela se esquivava, mas uma espada estava sob suas costas, que ela usou para desamarrar as mãos. Em poucos instantes a cena havia se repetido, mas havia mais corpos e ela agora estava vestida como uma guerreira, mas o sangue ainda a adornava e acusava o que ela era.


“Assassina, uma bela assassina” propôs o capitão. “Seja uma dos meus”. Ela ergueu a espada para ele. “Não pense que terá tanta sorte quanto teve com esse idiota beberrão, aliás, eu mesmo estava pra fazer isso, mas a minha preguiça não deixou...”, completou sorrindo sob a densa e grisalha barba. “Este velho ainda tem seus truques. Truques que podem ser úteis a alguém com tanta determinação”, disse ele colocando a espada sobre o ombro num gesto relaxado. “Não quero que se deite com ninguém. Só quero que os que acreditem que a terão ao invés de despertar no calor do amor, amanheçam no frio da morte”.


A morte como meio de vida. Sobrevivência?



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